Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011
As condicionantes da Acção Humana

 

 

José Luis Aranguren

 

A vida do homem forma um ‘todo’, de tal modo que cada um dos nossos actos leva em si o peso de toda a vida. Nos primeiros anos todas as perspectivas estavam abertas e o número de possibilidades era praticamente ilimitado. À medida que, depois, vamos preferindo possibilidades e realizando-nos, vamos também conformando a nossa vida segundo uma orientação e deixando atrás, fechadas ou pelo menos abandonadas, outras possibilidades. (…) Deste modo o campo da acção plenamente livre vai-se estreitando a medida que a vida passa. A nossa liberdade actual está condicionada pela história da nossa liberdade, anterior a essa decisão que queríamos tomar agora e que talvez não possamos tomar. (…) Comprometida pelas suas decisões anteriores, mas também pelas tendências profundas, pelas paixões. E também pelos dotes a cada um dados. Neste sentido é necessário rectificar o que à pouco dizíamos: o homem está sempre limitado, mesmo nos seus primeiros anos de vida, antes que tenha começado a tomar decisões e tenha começado a dar forma à sua vida; está limitado pela sua constituição psicobiológica.

O condicionamento da liberdade pela vida é, pois triplo: condicionamento psicobiológico, ‘naturalização’ da liberdade, pois esta não é a despedida da natureza, mas emerge precisamente da natureza; condicionamento pela situação; agora já não está nas minhas mãos dar à minha vida uma orientação perfeitamente possível há vinte anos. A situação concreta rouba-nos uma porção de possibilidades e impõe-nos um conjunto de deveres iniludíveis. Cada homem podia ter sido muito diferente do que é, mas passou já a oportunidade para que tal acontecesse. E, finalmente, em terceiro lugar, condicionamento pelo habitus. Os hábitos que contraímos restringem a nossa liberdade, impelem‑nos para estes ou aqueles actos. (…)

A natureza, o hábito e a situação cerceiam de modo triplo a nossa liberdade actual. Podem chegar a anulá-la? Não. A liberdade está inscrita na natureza, mas em maior ou menor medida – mas nem todos os homens dispõem de igual força de liberdade, de igual força de vontade – transcende-a sempre. E é justamente neste ser transnatural que consiste ser homem.

José Luis Aranguren, Ética, Madrid, Alianza Editorial, 1985



publicado por Branca Cerqueira às 12:28
link do post | comentar | favorito
|

1 comentário:
De Joana Mendonça a 9 de Julho de 2011 às 22:27
É de extrema importancia textos desta natureza. Ajuda-nos a consolidar ideias.


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Novembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
22
23

25
26
27
28
29
30


posts recentes

O Ethos, o Pathos e o Log...

Agumentação versus demons...

Argumentação e Retórica

Especificidade da Filosof...

Do "filosofar espontâneo"...

A Utilidade Da Filosofia ...

Livros Recomendados Para ...

O que constitui uma boa a...

As condicionantes da Acçã...

As condicionantes da Acç...

arquivos

Novembro 2012

Junho 2011

Janeiro 2011

Fevereiro 2010

Outubro 2008

Novembro 2007

Outubro 2007

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds