Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012
Do "filosofar espontâneo" ao "filosofar sistemático"

     

 

 

 

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Mesmo se é difícil (se não mesmo impossível) dar a definição da Filosofia, a verdade é que as questões filosóficas brotam espontaneamente do espírito humano.

 

T.Nagel

Karl Jaspers escreveu que “as perguntas das crianças são um admirável sinal de que o homem, enquanto homem, filosofa espontaneamente”.

 

 T. Nagel (filósofo) e F.Alberoni (sociólogo)  chamam a atenção para que os adolescentes estão particularmente predispostos para colocar “a si próprios perguntas cruciais” (Alberoni),  questões que (mesmo sem o saberem) são de carácter filosófico.

“… a matéria-prima filosófica vem directamente do mundo e da nossa relação com ele” (T. Nagel).

 

K. Popper e A. Gramsci (ambos filósofos) vão mais longe, considerando que “todos os homens são filósofos” .

 

“… todos o homem desenvolve determinados pontos de vista filosóficos – ainda que geralmente acríticos – (…) perante a vida” (K. Popper).

 

Karl Jaspers afirma mesmo que “a filosofia é imprescindível ao homem, está presente e manifesta nos provérbios tradicionais, em máximas filosóficas correntes, em convicções dominantes, como sejam, por exemplo, a linguagem e as crenças políticas; está presente, sobretudo, nos mitos anteriores ao início da história” (K. Jaspers).

 

O homem, pelo facto de ser homem (animal pensante) tem necessidade de compreender (ou, pelo menos, de sentir que compreende) o mundo (fazendo dele o seu mundo) e de se compreender a si próprio (dando sentido à sua existência).

 

Enquanto ser racional, o homem pensa (ainda que de forma acrítica) e transporta consigo uma visão do mundo (uma concepção global do mundo e da vida) como resposta à sua necessidade de compreender.

 

Esta visão do mundo é frequentemente formada por um conjunto de ideias recebidas do meio sócio-cultural envolvente.

 

Em todo o caso, num momento ou noutro da sua vida, qualquer homem se vê confrontado com questões de fundo (questões 

filosóficas), mesmo se não reconhecidas como tais, acerca da vida e do seu sentido.

 

Deste modo, “não se pode fugir à filosofia. (…) quem recusar a filosofia está realizando um acto filosófico” (K. Jaspers).

 

            Mas, face a este saber primeiro enraizado na imediatez do vivido (prático-utilitário), importa perguntar:

 

"É preferível 'pensar' sem disso ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, numa concepção do mundo 'imposta' mecanicamente pelo ambiente exterior, (...) ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo consciente e criticamente?" (A. Gramsci).

 

            Parece não ser difícil a resposta a esta questão. E isto sugere que, quando se diz que "todos os homens são filósofos", se afirma apenas uma parte (de facto, uma bem pequena parte) da verdade.

 

Importa saber se uma tal filosofia “é consciente ou inconsciente, boa ou má, confusa ou clara” (K. Jaspers).

 

Ou como escreveu K. Popper, “compete ao filósofo profissional investigar criticamente as coisas que muitos outros têm na conta de óbvias. Pois muitos  destes pontos de vista não passam de preconceitos que são aceites acriticamente como óbvios, mas que muitíssimas vezes são simplesmente falsos. E para denunciar isto, precisa-se talvez, de alguém como um filósofo profissional que dedique todo o seu tempo à reflexão crítica” (K. Popper).

 

            O que distingue o filósofo sistemático (e neste sentido nem todos os homens são filósofos, ainda que todos possam sê-lo) é o facto de que, por um lado, ele pensa “com mais rigor, com maior coerência, com maior espírito de sistema que os restantes homens”, e, por outro lado, ele “conhece toda a história do pensamento, quer dizer, sabe qual foi a evolução do pensamento até ele e está em condições de encarar os problemas no ponto em que se encontram depois de terem sido objecto do maior número de tentativas de solução” (A. Gramsci).

 

Do filosofar sistemático (afinal o filosofar em sentido próprio) se pode dizer que ele tem por palavra de ordem “pensar consciente e criticamente” (A. Gramsci).

 

Trata-se de fazer da Razão critério quer do pensamento quer da acção. E então a referida palavra de ordem desbobra-se em duas:

 

- pensar por si mesmo;

- ser guia de si mesmo.



publicado por Branca Cerqueira às 15:00
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